Existem diferentes espécies de lontras? Conheça as 14 espécies reconhecidas atualmente
As lontras estão entre os mamíferos semiaquáticos mais conhecidos do mundo. Ágeis, excelentes nadadoras e extremamente adaptadas à vida próxima da água, elas podem ser encontradas em rios, lagos, manguezais, regiões costeiras e até ambientes marinhos. ( Por Dr. Roque Junior, Médico-Veterinário CRMV 23098 )
Mas uma dúvida bastante comum é:
Existe apenas uma espécie de lontra?
A resposta é não.
Atualmente, são reconhecidas 14 espécies viventes de lontras, distribuídas pelas Américas, Europa, Ásia e África. Todas pertencem à subfamília Lutrinae, dentro da família Mustelidae, a mesma família zoológica que inclui animais como furões, doninhas, texugos, martas e visons. (Grupo Especialista em Lontras)
Embora compartilhem várias características, cada espécie apresenta particularidades relacionadas ao tamanho, comportamento, alimentação, distribuição geográfica e grau de adaptação ao ambiente aquático.
🦦 Afinal, o que caracteriza uma lontra?
As lontras pertencem à ordem Carnivora e possuem diversas adaptações para nadar e procurar alimento dentro da água.
De maneira geral, apresentam:
corpo alongado e hidrodinâmico;
membros relativamente curtos;
pelagem densa;
excelente capacidade de natação;
vibrissas sensíveis ao redor do focinho;
cauda importante para a locomoção;
adaptações das patas para captura de presas e deslocamento aquático.
Todas as espécies atuais são semiaquáticas ou marinhas, embora o grau de dependência da água varie consideravelmente entre elas. (Grupo Especialista em Lontras)
A alimentação também varia de acordo com a espécie e o ambiente, podendo incluir:
peixes → crustáceos → moluscos → anfíbios → pequenos vertebrados → outros organismos aquáticos.
Apesar da aparência muitas vezes associada a animais dóceis, as lontras são mamíferos carnívoros e predadores altamente especializados.
Quantas espécies de lontras existem?
Durante bastante tempo, a literatura zoológica reconheceu 13 espécies de lontras.
Entretanto, estudos genéticos mais recentes identificaram uma diferenciação importante entre determinadas populações anteriormente classificadas como pertencentes à lontra-neotropical (Lontra longicaudis).
Um estudo genômico publicado no Journal of Mammalogy em 2024 encontrou evidências suficientes para reconhecer as populações transandinas anteriormente classificadas como Lontra longicaudis annectens como uma espécie independente: Lontra annectens. (OUP Academic)
Com essa atualização, o IUCN SSC Otter Specialist Group atualmente trabalha com 14 espécies viventes de lontras. (Grupo Especialista em Lontras)
🦦 Conheça as 14 espécies de lontras
1. Lontra-europeia ou lontra-eurasiática — Lutra lutra
É uma das espécies mais amplamente distribuídas.
Pode ser encontrada em grande parte da:
Europa;
Ásia;
algumas regiões do norte da África.
Ocupa principalmente rios, lagos, áreas úmidas e regiões costeiras.
Sua extensa distribuição geográfica também fez com que se tornasse uma das espécies de lontras mais estudadas.
2. Lontra-neotropical — Lontra longicaudis
A Lontra longicaudis é particularmente importante para nós porque ocorre no Brasil.
Pode habitar:
rios;
riachos;
lagos;
áreas alagadas;
ambientes costeiros que apresentem disponibilidade de água doce.
No território brasileiro, sua distribuição é bastante ampla, ocorrendo em praticamente todas as regiões onde existem corpos d'água adequados. (Revista Eletrônica ICMBio)
É uma espécie discreta e frequentemente difícil de observar na natureza.
Muitas vezes, pesquisadores identificam sua presença por sinais indiretos, como fezes, pegadas e locais utilizados para descanso.
3. Lontra-mesoamericana — Lontra annectens
Essa é justamente a espécie responsável pela atualização de 13 para 14 espécies reconhecidas atualmente.
Durante muitos anos, essas populações foram consideradas parte da Lontra longicaudis.
Estudos genômicos demonstraram, entretanto, uma diferenciação suficientemente importante para apoiar seu reconhecimento como espécie independente. (OUP Academic)
Sua distribuição inclui regiões que vão do México e América Central até áreas da América do Sul localizadas a oeste dos Andes. (Grupo Especialista em Lontras)
Como seu reconhecimento taxonômico é recente, ainda existem importantes lacunas sobre sua ecologia e conservação.
4. Lontra-canadense — Lontra canadensis
Também conhecida como lontra-de-rio-norte-americana, é encontrada na América do Norte.
Está adaptada principalmente a ambientes de água doce, como:
rios;
lagos;
áreas pantanosas;
sistemas fluviais.
É uma nadadora extremamente eficiente e pode realizar deslocamentos também em terra firme.
5. Lontra-marinha — Enhydra lutris
A lontra-marinha é provavelmente uma das espécies mais peculiares do grupo.
Vive nas águas costeiras do Pacífico Norte e apresenta um nível de adaptação à vida marinha muito superior ao da maioria das outras lontras.
Grande parte de sua alimentação é composta por invertebrados marinhos.
Ela também ficou conhecida pelo comportamento de manipular determinados alimentos e objetos com as patas dianteiras.
A espécie depende intensamente de sua pelagem extremamente densa para isolamento térmico.
6. Ariranha ou lontra-gigante — Pteronura brasiliensis
A famosa ariranha é a maior espécie de lontra existente.
É encontrada na América do Sul e possui populações importantes na Amazônia e no Pantanal.
No Brasil também é conhecida como:
lontra-gigante;
onça-d'água;
ariranha.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, um indivíduo pode atingir aproximadamente 1,80 metro de comprimento e pesar entre 26 e 30 kg. (Serviços e Informações do Brasil)
Uma característica extremamente interessante da espécie são as manchas claras presentes na região do pescoço.
O padrão dessas manchas varia entre indivíduos e pode funcionar praticamente como uma “impressão digital”, permitindo que pesquisadores reconheçam diferentes animais. (Serviços e Informações do Brasil)
7. Lontra-marinha-sul-americana — Lontra felina
Apesar do nome semelhante ao da Enhydra lutris, trata-se de outra espécie.
A Lontra felina habita principalmente regiões costeiras do Pacífico da América do Sul.
É particularmente adaptada a ambientes marinhos costeiros e rochosos.
8. Lontra-do-sul — Lontra provocax
Também conhecida como southern river otter, ocorre principalmente no sul da América do Sul.
É encontrada especialmente em regiões da Argentina e Chile.
Pode utilizar tanto ambientes de água doce quanto determinadas regiões costeiras.
9. Lontra-de-unhas-pequenas-asiática — Aonyx cinereus
É uma das menores espécies de lontras do mundo.
Vive principalmente no sul e sudeste da Ásia.
Suas patas dianteiras apresentam grande capacidade de manipulação, permitindo que explore substratos e procure pequenos organismos aquáticos.
A dieta inclui frequentemente:
crustáceos;
moluscos;
pequenos peixes;
outros invertebrados.
10. Lontra-sem-unhas-africana — Aonyx capensis
É uma grande espécie africana encontrada em diferentes ambientes aquáticos do continente.
O nome está relacionado à redução das unhas em seus membros.
Suas patas apresentam grande habilidade para manipulação e procura de alimentos.
11. Lontra-do-Congo — Aonyx congicus
Ocorre em regiões da África Central.
Durante muitos anos, aspectos de sua biologia permaneceram pouco conhecidos quando comparados às espécies mais estudadas da Europa ou América do Norte.
É uma das espécies africanas pertencentes ao gênero Aonyx.
12. Lontra-de-pescoço-malhado — Hydrictis maculicollis
É uma espécie africana caracterizada pelas manchas claras que podem aparecer na região do pescoço e parte inferior da cabeça.
Possui forte associação com ambientes de água doce e alimentação predominantemente aquática.
13. Lontra-de-nariz-peludo — Lutra sumatrana
Encontrada no sudeste asiático, é considerada uma das espécies de lontras menos conhecidas.
Seu nome está relacionado à presença característica de pelos sobre a região do nariz.
Habita áreas úmidas, rios, pântanos e outros ambientes aquáticos.
14. Lontra-de-pelagem-lisa — Lutrogale perspicillata
Também encontrada na Ásia, apresenta uma pelagem relativamente mais curta e lisa quando comparada com várias outras espécies.
Pode ocupar:
rios;
lagos;
manguezais;
pântanos;
áreas costeiras.
🦦 E quais espécies de lontras existem no Brasil?
Quando falamos de lontras brasileiras, duas espécies merecem destaque especial:
Lontra longicaudis
A lontra-neotropical possui ampla distribuição no território brasileiro.
Pode ser encontrada em diferentes biomas e utiliza rios, riachos, lagoas e determinados ambientes costeiros associados à disponibilidade de água doce. (Revista Eletrônica ICMBio)
Pteronura brasiliensis
A ariranha é outra representante brasileira da subfamília Lutrinae.
É particularmente associada a grandes sistemas de água doce da América do Sul e possui populações importantes na Amazônia e Pantanal.
É também a maior espécie de lontra existente atualmente. (Serviços e Informações do Brasil)
Apesar de ambas pertencerem à mesma família, não devemos confundir:
lontra-neotropical ≠ ariranha.
São espécies diferentes, com diferenças importantes de tamanho, comportamento e organização social.
Lontra e ariranha são a mesma coisa?
Não exatamente.
No sentido zoológico amplo, a ariranha é um membro da subfamília das lontras, mas no Brasil os nomes populares normalmente diferenciam claramente os animais.
A lontra-neotropical (Lontra longicaudis) costuma apresentar comportamento predominantemente mais solitário.
A ariranha (Pteronura brasiliensis), por sua vez, é conhecida por apresentar uma estrutura social muito mais evidente, vivendo em grupos familiares e apresentando um repertório de vocalizações bastante desenvolvido.
O ICMBio descreve as ariranhas como animais sociais que vivem em grupos e apresentam reprodução cooperativa. (Revista Eletrônica ICMBio)
Como as lontras conseguem viver dentro da água?
Embora exista grande variação entre as espécies, as lontras possuem um conjunto de adaptações anatômicas e comportamentais impressionantes.
Corpo hidrodinâmico
O corpo alongado reduz a resistência durante a natação.
Cauda
A cauda participa da propulsão, estabilização e mudança de direção dentro da água.
Na ariranha, ela é particularmente musculosa e achatada.
Patas adaptadas
Muitas espécies possuem membranas entre os dedos, facilitando a natação.
Em outras, especialmente representantes do gênero Aonyx, as patas também desempenham importante função na manipulação e procura de alimento.
Vibrissas
Os “bigodes” das lontras possuem importante função sensorial e ajudam o animal a perceber movimentos e alterações na água.
Pelagem
A pelagem possui enorme importância para isolamento térmico.
Isso é particularmente impressionante na lontra-marinha, que depende intensamente da pelagem para manter sua temperatura corporal em águas frias.
O que as lontras comem?
As lontras são animais da ordem Carnivora.
Entretanto, a composição da dieta depende da espécie, do habitat e da disponibilidade de alimento.
Podem consumir:
🐟 peixes
🦀 crustáceos
🐚 moluscos
🐸 anfíbios
🦐 outros invertebrados aquáticos
🐦 pequenas aves em determinadas situações
🐭 pequenos vertebrados
As lontras são, portanto, importantes predadores dos ecossistemas aquáticos.
Por que as lontras são importantes para os ecossistemas?
Predadores exercem um papel fundamental no equilíbrio dos ambientes naturais.
Por ocuparem posições relativamente altas nas cadeias alimentares aquáticas, as lontras participam do controle das populações de suas presas e da dinâmica desses ecossistemas.
Além disso, a presença ou ausência desses animais pode fornecer informações importantes sobre as condições ambientais de determinadas regiões.
Rios, áreas úmidas e ambientes costeiros preservados são fundamentais não apenas para as lontras, mas para uma enorme diversidade de animais, plantas e comunidades humanas.
Principais ameaças às lontras
Apesar de sua extraordinária capacidade de adaptação ao ambiente aquático, diversas espécies enfrentam pressões provocadas pelas atividades humanas.
Entre as principais ameaças encontram-se:
destruição e fragmentação de habitats;
poluição dos rios;
contaminação ambiental;
redução das populações de peixes;
captura acidental em redes de pesca;
conflitos com seres humanos;
caça histórica e ilegal;
alterações de cursos d'água;
mudanças climáticas.
O IUCN SSC Otter Specialist Group destaca que conservação dos habitats, pesquisa, manejo e redução das ameaças humanas são fundamentais para garantir o futuro das diferentes espécies. (Grupo Especialista em Lontras)
Lontras são animais de estimação?
Não.
Apesar de vídeos nas redes sociais muitas vezes mostrarem lontras interagindo com pessoas, lontras são animais silvestres.
Seu comportamento, necessidades ambientais, dieta e organização social são completamente diferentes dos animais domesticados ao longo de milhares de anos, como cães e gatos.
A aparência carismática não deve ser confundida com domesticação.
São animais:
carnívoros;
territorialistas em diferentes graus;
dotados de dentes e mandíbulas adaptados à alimentação predatória;
extremamente ativos;
dependentes de ambientes complexos;
capazes de apresentar comportamentos naturais incompatíveis com uma residência comum.
A conservação das lontras deve priorizar sua permanência em ambientes naturais protegidos.
Curiosidade: a ciência ainda está descobrindo novas diferenças entre as lontras
Talvez uma das partes mais interessantes desse grupo seja justamente o fato de que sua classificação ainda pode mudar conforme surgem novas evidências.
Durante décadas, dizia-se que existiam 13 espécies de lontras.
Análises genéticas em escala genômica demonstraram que determinadas populações classificadas como Lontra longicaudis apresentavam diferenças evolutivas suficientemente importantes para justificar o reconhecimento da Lontra annectens como espécie distinta. (OUP Academic)
Por isso, a classificação utilizada atualmente pelo IUCN SSC Otter Specialist Group contém 14 espécies. (Grupo Especialista em Lontras)
É um excelente exemplo de como a ciência funciona:
observação → novas tecnologias → novos dados → revisão das hipóteses → atualização do conhecimento.
Conclusão
Não existe apenas uma espécie de lontra.
Esses fascinantes mamíferos pertencem à família Mustelidae e à subfamília Lutrinae, formando atualmente um grupo com 14 espécies reconhecidas distribuídas por grande parte do planeta.
Algumas vivem predominantemente em rios e lagos, outras utilizam regiões costeiras e uma delas — a lontra-marinha — apresenta adaptações extraordinárias à vida no oceano.
No Brasil, dois representantes chamam especialmente a atenção: a lontra-neotropical (Lontra longicaudis) e a impressionante ariranha (Pteronura brasiliensis), maior espécie de lontra do mundo.
Conhecer essas espécies é também compreender a importância da preservação dos rios, áreas úmidas, manguezais e ecossistemas aquáticos dos quais elas dependem.
Preservar as lontras também significa preservar os ambientes aquáticos e toda a biodiversidade associada a eles.
Referências
IUCN SSC Otter Specialist Group. Otter Species. Relação atual das 14 espécies de lontras reconhecidas pelo grupo especialista da União Internacional para a Conservação da Natureza.
de Ferran V. et al. Genome-wide data support recognition of an additional species of Neotropical river otter (Mammalia, Mustelidae, Lutrinae). Journal of Mammalogy. 2024;105(3):534–542.
ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Avaliação do risco de extinção da lontra-neotropical (Lontra longicaudis) no Brasil.
ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Avaliação do risco de extinção da ariranha (Pteronura brasiliensis) no Brasil.
INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Informações sobre a biologia e características da ariranha (Pteronura brasiliensis).
👨⚕️👨⚕️ Sobre o autor
Dr. Roque Antonio de Almeida Junior é médico veterinário CRMV23098 com experiência em clínica de pequenos animais, além de atuação no manejo e atendimento de animais silvestres e exóticos, com foco em saúde gastrointestinal e medicina preventiva.
📍 Atuação em Mogi das Cruzes e região
🔗 Saiba mais e acompanhe:
- 🌐 Site Doutor dos Animais
- 📸 Instagram @roque_junior_veterinario
- 🐦 X (Twitter) @drRoqueJunior
- 💼 LinkedIn Dr. Roque Antonio de Almeida Junior
- 📘 Facebook Dr. Roque Junior Veterinário






