Desvio Portossistêmico em Cães e Gatos: Revisão Clínica, Diagnóstica e Terapêutica
Autor: Dr. Roque Antonio de Almeida Junior – Médico Veterinário CRMV 23098
Resumo
O desvio portossistêmico (DPS) é uma anomalia vascular caracterizada pela comunicação anômala entre o sistema porta e a circulação sistêmica, resultando na redução do fluxo sanguíneo hepático e consequente comprometimento da função hepática. A condição pode ser classificada como congênita ou adquirida, sendo mais frequentemente diagnosticada em cães de raças pequenas. Os sinais clínicos são predominantemente neurológicos e gastrointestinais, decorrentes da encefalopatia hepática. O diagnóstico envolve exames laboratoriais e métodos de imagem avançados, enquanto o tratamento pode ser clínico ou cirúrgico, dependendo da apresentação do caso. Este artigo revisa os principais aspectos fisiopatológicos, clínicos, diagnósticos e terapêuticos do DPS em pequenos animais.
Palavras-chave: desvio portossistêmico, shunt hepático, encefalopatia hepática, cães, gatos, hepatologia veterinária
1. Introdução
O desvio portossistêmico (DPS), também denominado shunt portossistêmico, representa uma importante afecção hepatovascular em cães e gatos. Trata-se de uma condição na qual o sangue portal, rico em nutrientes e substâncias potencialmente tóxicas, desvia-se do fígado por meio de uma conexão vascular anômala, impedindo a adequada metabolização hepática.
A relevância clínica do DPS está associada ao desenvolvimento de encefalopatia hepática (EH), além de alterações metabólicas e nutricionais decorrentes da hipoperfusão hepática.
2. Fisiopatologia
Em condições normais, o sangue proveniente do trato gastrointestinal é conduzido ao fígado através da veia porta, onde ocorre:
Detoxificação de metabólitos nitrogenados
Metabolização de fármacos e toxinas
Síntese de proteínas plasmáticas
No DPS, o fluxo portal é parcial ou totalmente desviado para a circulação sistêmica, levando a:
Redução da perfusão hepática
Atrofia hepática
Acúmulo sistêmico de amônia e outras toxinas
A hiperamonemia desempenha papel central na fisiopatologia da encefalopatia hepática, promovendo alterações neurológicas por disfunção neurotransmissora e edema cerebral.
3. Classificação
3.1. Desvio portossistêmico congênito
Presente desde o nascimento
Geralmente único
Pode ser:
Extra-hepático (mais comum em cães de pequeno porte)
Intra-hepático (mais comum em raças de grande porte)
3.2. Desvio portossistêmico adquirido
Secundário à hipertensão portal
Geralmente múltiplo
Associado a hepatopatias crônicas
4. Epidemiologia
O DPS congênito é mais prevalente em cães do que em gatos. Entre as raças caninas predispostas, destacam-se:
Yorkshire Terrier
Maltês
Poodle
Shih Tzu
Schnauzer Miniatura
Em felinos, a ocorrência é menos frequente e não há predisposição racial tão bem definida.
5. Manifestações clínicas
Os sinais clínicos estão diretamente relacionados à encefalopatia hepática e à incapacidade do fígado de metabolizar compostos tóxicos.
5.1. Sinais neurológicos
Letargia
Ataxia
Desorientação
Convulsões
Head pressing
Alterações comportamentais
5.2. Sinais gastrointestinais
Vômitos
Diarreia
Hiporexia ou anorexia
5.3. Outros achados clínicos
Retardo no crescimento
Urolitíase (especialmente uratos)
Poliuria e polidipsia
É comum a exacerbação dos sinais após ingestão alimentar, especialmente dietas ricas em proteína.
6. Diagnóstico
O diagnóstico do DPS baseia-se na associação entre achados clínicos, laboratoriais e de imagem.
6.1. Exames laboratoriais
Elevação de ácidos biliares séricos
Hiperamonemia
Hipoalbuminemia
Hipoglicemia (em alguns casos)
Redução de ureia
6.2. Diagnóstico por imagem
Ultrassonografia abdominal com Doppler
Tomografia computadorizada angiográfica (padrão ouro)
Cintilografia portal
A identificação do vaso anômalo é fundamental para o planejamento terapêutico, especialmente cirúrgico.
7. Tratamento
7.1. Tratamento clínico
Indicado como terapia paliativa ou estabilização pré-cirúrgica:
Dieta com proteína de alta digestibilidade e teor controlado
Lactulose (redução da absorção de amônia)
Antibióticos (ex.: metronidazol) para modulação da microbiota intestinal
7.2. Tratamento cirúrgico
Considerado o tratamento de escolha para DPS congênito:
Oclusão gradual do vaso anômalo (ex.: ameroide constrictor, ligadura parcial)
Redução progressiva do fluxo anômalo para evitar hipertensão portal aguda
A escolha da técnica depende da localização e do tipo do desvio.
8. Prognóstico
O prognóstico varia conforme:
Tipo de desvio
Idade do paciente
Presença de complicações
Em casos cirúrgicos bem-sucedidos, observa-se melhora significativa ou resolução dos sinais clínicos. Já o manejo exclusivamente clínico apresenta prognóstico reservado a longo prazo.
9. Considerações finais
O desvio portossistêmico é uma condição de grande relevância na clínica de pequenos animais, exigindo abordagem diagnóstica criteriosa e manejo terapêutico individualizado. O avanço das técnicas de imagem e das abordagens cirúrgicas tem contribuído significativamente para a melhora do prognóstico desses pacientes.
O diagnóstico precoce permanece como fator determinante para o sucesso terapêutico e qualidade de vida dos animais acometidos.
Sobre o autor
Dr. Roque Antonio de Almeida Junior – Médico Veterinário CRMV 23098
Médico veterinário com experiência em clínica de pequenos animais, com atuação também no manejo de animais silvestres e exóticos, com ênfase em saúde gastrointestinal e medicina preventiva.
📍 Atuação em Mogi das Cruzes e região
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